sábado, 28 de setembro de 2013

EUA: quando a democracia se sustenta na porrada




Crédito da foto: www.editoracontexto.com.br 

Quando era adolescente (e até um pouquinho depois) costumava provocar meus amigos mal-educados, dizendo que o príncipe Sihanouk, da Indonésia, havia tomado uma medida interessante para civilizar as pessoas: o uso da vara.

Cuspiu no chão? Cinco varadas.

Desrespeitou uma mulher ou uma pessoa mais velha? 50 varadas.

Brigou na rua? 100 varadas.

Na verdade não existe nenhum príncipe Sihanouk da Indonésia.

Norodom Sihanouk era cambojano (ele morreu em 2012) e foi “rei” de seu país em duas oportunidades (1941/1955 e 1993/2004).

Os castigos físicos para conter as presepadas mal-educadas das pessoas existem em vários países.

O que fiz foi apenas uma junção aleatória de histórias para chamar a atenção dos amigos pouco civilizados, argumentando que medidas como essas deveriam ser adotadas no Brasil: “A civilização chega a varadas”, provocava eu.

Liberdade nos EUA

Os Estados Unidos são apresentados, especialmente pela mídia conservadora e pelos seus adoradores/bajuladores em todo o mundo, como uma espécie de “campeões mundiais da democracia e das liberdades civis”.

Em parte essa fama se sustenta, mas há que se notar alguns descaminhos históricos e presentes que o País teve e tem de enfrentar.

Ainda estão frescas na memória (e queimando na pele) as restrições a que negros (afrodescendentes, como gostam os puristas) eram submetidos, especialmente no Sul no País.

Vencida (pelo menos em grande parte) a violência e as restrições à população negra, os EUA se meteram noutra escalada autoritária a partir do 11 de setembro de 2001.

Não são poucas as arbitrariedades protagonizadas pelo Estado contra o cidadão (nacional ou não), o que fez elevar, por exemplo, a população carcerária norte-americana para 2,3 milhões – cerca de 350 mil sem acusação formal.

Para nós brasileiros ficou uma triste memória: diplomatas e políticos nacionais (na época de FHC) sendo submetidos ao vexame de tirar os sapatos em aeroportos norte-americanos.

Tudo em nome da segurança nacional e da luta contra o terrorismo internacional.

A justificativa é ruim, até porque nem a Nação está segura e muito menos o terrorismo está vencido, especialmente aquele praticado dentro da própria casa.

Prisão de Cláudia Trevisan

Na última quinta-feira, a jornalista brasileira e correspondente de O Estado de São Paulo, Cláudia Trevisan, foi presa, algemada e mantida incomunicável por quase cinco horas na universidade de Yale.

A universidade é uma das mais prestigiadas dos EUA, tida como formadora da elite política e econômica do País. Bush filho, por exemplo, estudou lá.

Cláudia Trevisan fora à Yale tentar entrevistar o presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, que por lá dava uma palestra.

A universidade informou que a jornalista não poderia assistir à palestra do ministro Barbosa e nem ficar zanzando pelo campus.

O ministro Barbosa disse, ao telefone, que não daria entrevista.

Era para tanto?

Pode-se argumentar, a favor da arbitrariedade da polícia local, que Cláudia Trevisan fora alertada pela universidade e refutada pelo ministro, mas que mesmo assim insistiu em esperar por Barbosa e ficar no campus.

Ela foi acusada de invasão.

Invadiu alguma coisa?

Não!

A circulação pelo campus é livre, assim como é livre a circulação pelo prédio onde Barbosa dava sua palestra.

A única coisa que Cláudia Trevisan não fez foi “invadir” a sala de conferência.

Então onde está o crime?

Não tem crime. Tem uma paranoia crescente que toma conta das “autoridades” norte-americanas, e uma inacreditável hostilidade contra jornalistas e o jornalismo.

Só esqueceram-se de dizer para a polícia local que Cláudia Trevisan trabalha para um jornal conservador brasileiro – O Estado de São Paulo –, corriqueiro bajulador do jeito de ser norte-americano.

Reações estúpidas

Como sempre acontece em casos como esse, aqui no Brasil as reações à prisão da jornalista foram as mais estúpidas possíveis.

Da esquerda vieram coisas como “bem feito”, “isso é para aprender a não ficar babando ovo dos ianques” (sic).

Da direita, “lá no primeiro mundo é assim: desrespeitou a lei vai em cana”, “lá tem lei”.

Cláudia Trevisan está nos EUA, mas é brasileira, vai presa, é desrespeitada e ainda tem de aguentar esse festival de estupidez de seus conterrâneos.

Melhor fizeram o Itamaraty, entidades classistas e especialmente a Fenaj (a Federação Nacional dos Jornalistas) que denunciaram a arbitrariedade e cobram explicações do governo local.

Agora vamos esperar pelo que diz a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) tão lépida em denunciar abusos praticados contra jornalistas em países como Cuba, Venezuela, Irã e por ai vai.

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