sábado, 21 de setembro de 2013

Brasil de luto, mas com criatividade, por favor



A palavra “macaquito” com a qual alguns argentinos costumam se referir a brasileiros ganhou contornos racistas com o passar do tempo.

A pecha não nasceu assim. Nasceu como ironia argentina para a mania brasileira de copiar coisas de fora.

É uma forma de sarcasmo que até hoje nos irrita um bocado.

Costumamos não apenas copiar jeitos e maneiras de “gente de fora”, como de outros brasileiros que entendemos mais importantes que nós.

A foto da família da dançarina Carla Perez de luto é uma cópia mal-feita e ruim da foto de atrizes da Globo em protesto contra a aceitação dos embargos infringentes na AP 470 (Mensalão do PT).

Dispensa-se duvidar aqui se as atrizes e a família Perez sabem o que é a AP 470, o que são embargos infringentes, se já leram a Constituição Nacional e coisas do gênero.

É importante saber, no entanto, que o luto das atrizes é uma cópia da reação (reação proposta pela UNE na época) à convocação do então presidente Collor de Mello para que os brasileiros saíssem todos de verde e amarelo num 7 de setembro.

Não saíram. Saíram vestidos de preto para protestar contra o governo colorido.

O moderno é copiar

Tive um professor de história, pernambucano, recifense, negro que migrado ainda adolescente para o Rio de Janeiro se surpreendeu com a mania (de então) dos cariocas de passearem à tarde por Copacabana trajando ternos de linho branco, cartola e bengala aos moldes parisienses.

Nos anos sessenta, o Brasil ganhou a sua versão United Artists num troço que se chamou por aqui de Artistas Unidos.

Já no finalzinho dos 60, início dos 70, apareceu um cantor que se chamava Prini Lores, uma cópia bastante estranha do original Trini Lopez, um texano de origem mexicana, famoso por interpretar La bamba.

Não sem muita ironia e um bocado de bom humor, surgem, em 87, os Raimundos, uma homenagem explícita à banda norte-americana Ramones.

A iniciativa de artistas dos EUA para chamar a atenção do mundo para a África, com a gravação de We Are the World, ganhou rapidamente a sua versão brasileira para denunciar as injustiças de nossa sociedade.

Reza a lenda

São apenas alguns exemplos, entre milhares, quiçá milhões, que desmentem uma imagem que nós brasileiros fazemos de nós mesmos: que somos criativos, inventivos.

Somos copistas, gente que copia coisas dos outros, especialmente da Europa e mais no presente dos Estados Unidos.

Uma reação a esse comportamento brasileiro se deu, em bom estilo, por Oswald Andrade, o intelectual paulista, autor dos manifestos Pau Brasil e Antropófago.

Longe de desprezar os valores culturais europeus, o que Oswald defendia era o surgimento de uma cultura nacional que contemplasse não apenas coisas da Europa, mas também (e especialmente) os saberes de africanos e indígenas.

Direito ao escárnio

E também longe de achar que as atrizes globais e a família Perez não poderiam ou não deveriam protestar, vestindo-se de preto, o que se coloca nas críticas demolidoras feitas na WEB, especialmente nas redes sociais, é que as fotos são atos oportunistas, pouco criativas, um bocado cafonas e nada originais.

E isso é democracia: ter o direito de protestar, seja lá de que forma e contra o que for; mas também ter o direito de ironizar e achincalhar quem protesta - com maior ou menor ferocidade, mas tudo com originalidade.

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