segunda-feira, 30 de setembro de 2013

As manifestações de junho viraram fumaça (?)



Os chamados (pejorativamente) “coxinhas” estão desmobilizados.

Após as grandes manifestações de junho (que repercutiram até no exterior) parece que todo mundo se dispersou.

É possível ver uma ou outra manifestação aqui ou ali, mas isso, na real, sempre aconteceu: ora são os moradores das periferias, ora são os índios, ora são os professores e por aí vai.

Uma das causas apontadas pelos “entendidos” é que os manifestantes de junho tinham bandeiras de mais, e disposição de menos.

Não deixam, pelo menos em parte, de ter razão: quem tem muita bandeira, não tem nenhuma.

Outra leitura é que ao entrar na cena das manifestações, os black blocs (mascarados de tendência anarquista, logo rotulados pela imprensa de “baderneiros”), os pobres da periferia, gente ligada a sindicatos e militantes de partidos políticos assustaram os mais comportados.

Uma das lógicas – talvez a única – dos manifestantes de junho era ser contra tudo e contra todos: contra o governo, contra a polícia, contra os políticos, contra os corruptos e mais uma porção de outros “do contra”.

Direcionar os protestos para um ou poucos objetivos aparentemente deixou a maioria desgostosa.

Órfãos de Nietzsche

O filósofo Friedrich Nietzsche é tido por muitos (embora outros tantos neguem) como o pai do Niilismo contemporâneo.

Mesmo sem conhecê-lo (e mesmo ressalvando-se que Nietzsche tem nada ou muito pouco a ver com isso) uma parte considerável da população ocidental é niilista.

Grosso modo, o niilista é aquele sujeito que não acredita em nada: em Deus, nas instituições, na virtude e por aí vai.

Ser contra tudo e contra todos está na moda. Pode ser passageira, mas está na moda.

Um movimento perceptível provocado pelo Niilismo se vê exatamente no campo religioso: cresce, a cada dia, o número de agnósticos, de ateus e de adeptos das chamadas religiões new age.

Pode parecer contraditório misturar descrença com religiosidade, mas não é: as new age empurram as pessoas para o campo obscuro de uma religião sem Deus, sem dogmas, sem templos.

Empurram para uma religião pessoal, individualista, onde o sujeito (indivíduo) se basta por si só, sem necessitar da ajuda de terceiros (padre, pastor, mullah etc.)

Individualismo exacerbado

Sem referências metafísicas ou místicas, o niilista (agnóstico, ateu ou new age) é presa fácil do individualismo, uma espécie de marca registrada do Liberalismo, que tem no mercado o seu fetiche maior (o consumismo).

A mim só interessa eu mesmo, e mais nada - é credo contemporâneo.

Minha mãe, que não pode ser classificada como uma niilista, muito pelo contrário, é uma crente, adepta de uma dessas igrejas neopentecostais, cujo nome nunca consegui decorar,  tem uma frase lapidar, que resume com precisão estes tempos atuais: “na minha casa mando eu, depois de mim, mais ninguém”.

É provável que algum filósofo niilista viesse a adorar esta simpática verdade materna, e a partir dela escrevesse algum compêndio profundo sobre o individualismo.

Desengate político

Se já não acredito em mais nada – Deus, religião, dogmas etc. – por que acreditaria em partidos políticos, em autoridades, nas organizações sociais, nas lutas de classe, em sindicatos e noutras coisas similares que considero velhas e ultrapassadas?

Daí que bandeiras ideológicas não mais me atraem, não mais me fascinam.

A minha luta é pessoal.

Pode ser a sua também, num dado momento e contra alguma coisa que nos incomode.

Mas é muito provável que amanhã ou depois estejamos em lados opostos, sejamos adversários e até inimigos.

A ausência de um Norte desmobiliza, enfraquece, desanima; não dá coesão social.

Nem tudo são espinhos

Seja por que razão for, quem tem bandeira e objetivo continua mobilizado.

E há até quem, aproveitando-se da voluntariedade dos “coxinhas”, içou uma bandeira com um Norte, como no caso dos atletas do Bom Senso FC, que, em boa hora, foram à luta contra os desmandos do futebol brasileiro: contra os cartolas de clubes, das federações, da CBF, e até contra a Rede Globo, que mantem o esporte nacional manietado aos seus interesses e transformou boa parte dos atletas em neo-escravos, embora muito deles ganhe bem e até tenha ficado rico.

É tudo uma questão de foco e de mobilização.

Em resumo: é tudo uma questão de política e ideologia.

Mas os “coxinhas” não conseguem perceber isso.

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