domingo, 25 de agosto de 2013

“O mistério das oscilações de Dilma no Ibope”. Mistério?



O ex-assessor de imprensa de Lula da Silva, e hoje na Rede Record, Ricardo Kotscho, se mostra surpreso com as oscilações da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas (http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2013/08/24/o-misterio-das-oscilacoes-de-dilma-no-ibope/):

“O que aconteceu de tão grave no país de uma pesquisa para outra capaz de justificar as abruptas oscilações na avaliação positiva do governo de Dilma Rousseff no Ibope?”

“Agora, sem que de novo algo de fantástico tenha acontecido, Dilma subiu (Ibope) 7 pontos na pesquisa divulgada neste sábado, chegando a 38%.”

Não sem uma ponta de ironia e desconfiança, Kotscho pede ajuda a “Montenegro do Ibope” e a “Paulino do Datafolha, dois profissionais pelos quais tenho o maior respeito e nenhum motivo para duvidar de sua seriedade” para entender o “fenômeno”, já que “as explicações dadas pela maioria dos especialistas até agora” não o convenceram.

As explicações dos especialistas passam pelos “protestos das chamadas ‘Jornadas de Junho’, como se a presidente Dilma tivesse sido o principal alvo daquelas manifestações, com o governo vivendo uma crise profunda, o que não é verdade”.

“E qual foi o único fato concreto resultante das manifestações que levaram milhões às ruas? Apenas a redução das tarifas de transporte coletivo, exatamente a reivindicação inicial do Movimento Passe Livre, que detonou os protestos.”

O alvo era Dilma e o PT sim

Há problemas com o texto do jornalista. Kotscho incorre no velho vício jornalístico da metonímia, ao pegar a parte pelo todo.

Ao dizer que as manifestações de junho foram “detonadas” pelo Movimento Passe Livre, o que teria levado milhões de pessoas às ruas pela “redução das tarifas de transporte coletivo”, o jornalista restringe a análise (sic) e, portanto, não identifica que boa parte dos manifestantes estava nas ruas “contra a corrupção” e contra os “gastos da Copa do Mundo”.

Ora, neste exato momento – que já dura alguns anos – corrupção é sinônimo (no imaginário popular) de “mensalão” e “mensalão” (tal qual está posto) é coisa do PT.

Os gastos “exorbitantes” com os estádios da Copa também são única e exclusivamente tributados ao Partido dos Trabalhadores.

Contexto submerso

Há um outro contexto que está submerso nas manifestações: os programas sociais do governo federal.

Não um, nem dois ex-votantes do ex-presidente Lula da Silva hoje são seus figadais inimigos. Mais uma vez o discurso de face remete à corrupção petista.

Mas o que a classe média – o grosso dos protestantes e apoiadores de junho – se sente é traída – embora um bocado beneficiada – pelo governo do PT, e por seus programas sociais voltados às camadas mais vulneráveis da população brasileira.

Basta ver como até hoje essa parcela letrada e urbana da população ainda se refere a pobres, índios, pretos, quilombolas, prostitutas, favelados, presos etc. e tal.

Isso quer dizer que as manifestações de junho foram uma revolta social contra os programas de inclusão do governo federal.

A recuperação

Embora não admitida uma manipulação nas pesquisas durante e no pós-imediato às manifestações de junho, Kotscho coloca um ponto de interrogação na coleta de opinião.

Coloca, mas mais uma vez não aprofunda a análise.

Não um, nem dois, mas vários analistas que se aprofundaram nos números das pesquisas viram uma desproporção (que não acompanha os índices do IBGE, nos quais as empresas pesquisadoras se fiam) entre a quantidade de pessoas urbanas X moradores das zonas rurais, e entre pessoas com nível universitário X quem não o tem.

Tudo sempre “a maior” para os urbanos e os de nível universitário.

Ora, isso cria uma outra distorção: as populações mais carentes, que vivem nas zonas urbanas, são mais susceptíveis às influências, até porque partilham (em sua maioria) dos mesmos anseios e dos mecanismos de interação social das classes médias, essas que são normalmente refratárias aos programas sociais.

Confiança

A explicação para a recuperação da popularidade da presidente Dilma, portanto, estaria sim no refluxo das manifestações de rua e não em eventuais feitos da administração pública que pudessem bloquear o volume de insatisfações.

De parte deste afalaire, continua-se acreditando nas pesquisas e nos institutos que a fazem, independente de discrepâncias e eventuais erros na composição dos grupos a serem pesquisados.

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