segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A mídia tradicional vai mal das pernas. Ainda bem



Recentemente, pouco menos de dois meses, a Folha de São Paulo publicou uma matéria para mostrar que mais de 80% das informações que circularam na internet por conta dos protestos de junho tinham origem na mídia tradicional.

A FSP tinha razão?

Mais ou menos.

“Esqueceu” apenas de dizer que boa parte desse material replicado nas redes sociais e em outros meios eletrônicos vinha acompanhado de observações, questionamentos e até chistes, nada disso simpático ao que publicaram jornais, revistas, sítios, e o pessoal das mídias rádio e TV.

“Esqueceu“ igualmente de dizer que as convocações para as manifestações não estavam na mídia tradicional, mas nas redes sociais.

“Esqueceu” ainda de dizer que boa parte do bate-boca que se seguiu às manifestações de junho, especialmente as relacionadas ao Fora de Eixo, ao Mídia Ninja, ao MLP, se deu igualmente nas redes sociais, e um pouquinho só na mídia tradicional.

Eis, pois, que a FSP contou apenas uma parte da história: a parte que lhe interessava contar.

Mídia Ninja faz jornalismo?

Mais recentemente, coisa de duas semanas, um sujeito escreveu um texto no jornal O Estado de São Paulo, buscando derrubar a ideia de que o coletivo Mídia Ninja faça jornalismo.

Para dar sustança ao seu arrazoado, o escriba afirmou que tanto quanto o Mídia Ninja coloca os seus vídeos na internet, uma empresa X que lance um produto também faz a mesma coisa, e que nem por isso trata-se de jornalismo, mas sim de propaganda.

Opa, parece que ocorreu ai uma junção de corporativismo, baixa capacidade de análise e um bocado de desonestidade.

Pra começar a história há uma confusão malandra (na verdade ninguém mas faz essa diferenciação, provavelmente apenas este afalaire) entre propaganda e publicidade.

Propaganda diz respeito à difusão de idéias, à ideologia.

Publicidade não passa de um mecanismo de venda.

Pode-se dizer, portanto, que o Mídia Ninja – dado o seu engajamento às causas sociais – faça propaganda.

Mas a empresa X, ao lançar o seu produto, está fazendo publicidade.

Vá lá que é possível enxergar na publicidade um quê de propaganda; propaganda do consumismo, o que quer dizer propaganda do capitalismo.

Mas colocar as duas ações no mesmo balde... é o que se disse acima: uma junção de corporativismo, baixa capacidade de análise e um bocado de desonestidade.

Desconstruindo o capitalismo

Não fosse por outras razões, os coletivos – midiáticos e não midiáticos – desconstroem a lógica do capital, que se funda no princípio da verticalidade - o que quer dizer que o poder emana do alto da pirâmide sem permitir o feedback que viria (ou deveria vir, se não vivêssemos a lógica capitalista) das “instâncias inferiores”.

É isso que apavora, por exemplo, no Fora do Eixo, tão execrado, desde então, pela mídia tradicional, especialmente pela revista Veja e pelo jornal O Globo.

A lógica narrativa-descontínua do Mídia Ninja assusta muito a mídia tradicional, muito pouco pela sua descontinuidade – em alguma medida a mídia tradicional já faz isso há muito tempo -, mas muito mais pela sua fluidez que permite leva-la aos diversos palcos dos diversos acontecimentos – onde a mídia tradicional não costuma ir – e a capacita a difundir as suas informações junto às camadas sociais que a mídia tradicional não tem mais capacidade de atingir com sua narrativa verticalizada e previsível.

Tudo isso posto, há que se complementar o título deste texto: a mídia tradicional vai mal das pernas. Ainda bem que alternativas à narrativa tradicional e conservadora estão crescendo e se multiplicando.

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