quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Nós, humanos, ainda somos capazes de pensar (?)



Alicja Gescinska é uma polonesa que nasceu em 1981. É filósofa. Filósofa das mais instigantes e provocativas. Em um artigo para o De Morgen, de Bruxelas – “A Europa dos intelectuais: Para onde foi o pensamento livre?” – Gescinska defende que “mais do que um projeto político, a Europa deve ser um projeto moral, um paraíso da liberdade de expressão e da tolerância. Os intelectuais desempenham, nisso, um papel fundamental, mas infelizmente também eles, muitas vezes, têm mentes pouco abertas”.

Para Gescinska, “se estamos a lutar por uma sociedade aberta na Europa, isso implica a necessidade de apoiarmos valores específicos, como a liberdade, a tolerância e a responsabilidade individual e interpessoal”.

Uma lição que vale a nós outros, não-europeus, também.

E talvez precisemos retornar à filosofia e aos filósofos, como defendia o escritor português José Saramago.

Abaixo o texto (traduzido por Isabelle Rosselin) na íntegra e o link no texto original no sítio Presseurop.

[Tal como a Europa é mais do que uma entidade geográfica, a UE é mais dos que um simples corpo político. Vejo-a, antes de qualquer outra coisa, como um projeto moral. Se estamos a lutar por uma sociedade aberta na Europa, isso implica a necessidade de apoiarmos valores específicos, como a liberdade, a tolerância e a responsabilidade individual e interpessoal. Esses são os valores morais que têm de estar política e institucionalmente enraizados. Caso contrário, esses mesmos valores desmoronam-se.

Quase sempre damos por garantidos os valores que defendemos. Só quando estamos em risco de os perder percebemos que não é assim. Há algumas semanas, o internacionalmente famoso sociólogo Zygmunt Bauman foi ameaçado por 100 cabeças-rapadas polacos durante uma conferência na Universidade de Vroclav. Este turbulento incidente lembrou-me a necessidade de liberdade intelectual e o papel dos intelectuais na sociedade.

Os intelectuais contrabalançam o extremismo político

O conceito de intelectualismo tem, muitas vezes, conotações negativas. Evoca-nos a imagem de um velho de cabelos brancos encerrado na sua torre de marfim que pensa que tem uma melhor ideia sobre a sociedade do que as pessoas à sua volta. No entanto, os intelectuais são indispensáveis a uma sociedade saudável. A história ensina-nos que o primeiro alvo dos regimes totalitários – de direita e de esquerda – são as mentes inquiridoras dos pensadores.

O debate intelectual pode proporcionar um grande contrapeso ao extremismo político e à retórica populista. Por isso, não é uma simples coincidência que os mais ferozes ataques ao espaço intelectual livre venham de fontes populistas e extremistas.

É a isso que estamos a assistir na Hungria de Viktor Orbán, onde a liberdade de imprensa e de oposição são controladas, onde os intelectuais são empurrados para a sombra e onde o antissemitismo, a intolerância e a falta de liberdade estão a aumentar. O ataque de Vroclav à liberdade intelectual veio, igualmente, de um lugar pouco democrático. O bando de arruaceiros acabou por ser retirado da Universidade por polícias fortemente armados e por membros da unidade antiterrorista polaca. Ficou salva a liberdade intelectual, poderíamos pensar. Mas se a liberdade de pensamento e de expressão se estão a tornar uma questão central para os serviços antiterrorismo, então, não está qualquer coisa ameaçadoramente errada na Europa? É difícil haver liberdade de pensamento com uma camisa-de-força.

As ideias são mercadorias

A liberdade intelectual é, talvez, menos evidente por si só, internamente, do que seria de supor. Há muitas maneiras de cercear a liberdade; não tem necessariamente de envolver a força. Manipulação, pressão implícita, conformismo e até o cultivar-se qualquer coisa de tão vago como o “zeitgeist”, são maneiras eficientes de fazer as pessoas pensarem de determinada maneira.

Hoje em dia, existem vários fatores constritivos do espaço intelectual. A pressão sobre os académicos para publicarem, por exemplo, segundo a compulsão dos números de vendas do mercado editorial, orienta o conteúdo e a forma de pensar numa direção específica. As ideias são mercadoria e não nos pagam para expressarmos uma ideia que não vende.

Esta pressão económica é a força motriz por trás do crescente radicalismo e da excessiva simplificação. Tem de se ser notável para vender. Uma verdade moderada em breve será pisada pela investida das opiniões extremas. As nuances raramente são impressionantes. São necessárias afirmações ousadas.

Autoexame crítico

Esse é também o efeito do populismo no debate político e social: uma crescente reivindicação argumentativa e agressiva que se levanta no caminho não apenas do diálogo mas também do autoexame crítico. E sem diálogo e autoexame crítico, o espaço intelectual é muito apertado.

Um verdadeiro filósofo é alguém que questiona tudo e, antes de mais e acima de tudo, que se questiona a si próprio

Um verdadeiro filósofo é alguém que questiona tudo e, antes de mais e acima de tudo, que se questiona a si próprio. O relativismo próprio é indispensável a uma mente aberta. A liberdade de pensamento só existe quando podemos questionar as nossas próprias opiniões. Mesmo que o autoquestionamento e o autorelativismo, por vezes, nos leve a sentirmo-nos como um charlatão, como o filósofo polaco Leszek Kolakowski disse uma vez.

Kolakowski foi o verdadeiro modelo de um espírito livre. Foi a antítese do filósofo que está continuamente de pé, com o punho levantado, a proclamar a sua verdade. Kolakowski evidenciou tanto a sua ignorância como a ignorância dos outros. Ao fazê-lo, fez, sem dúvida, mais justiça à verdade do que as autoproclamadas mentes críticas, que são sobretudo críticas dos outros e não de si próprias.

A Europa beneficiaria com os sucessores de Kolakowski

A 10 de julho, eu estava em Varsóvia, a participar num debate sobre os valores europeus e como interpretá-los politicamente. O debate foi organizado pela Comissão Europeia, partindo do princípio de que a interação entre intelectuais e políticos conduz a uma melhor política. No entanto, vários membros da delegação polaca aproveitaram a oportunidade para criticarem o presidente da Comissão,

Durão Barroso, e culpá-lo pelo (alegado) empobrecimento cultural da Europa. O seu tom arrogante era sintomático da teoria que eu defendi, ou seja, que os intelectuais são demasiadas vezes culpados de asserção reivindicativa e de autossatisfação. Ao fazê-lo, eles próprios obstruem o debate aberto que precisam que funcione.

Entretanto, eu estava sentada ao lado de György Konrád, o escritor húngaro que, tal como Kolakowski, é a encarnação da liberdade de pensamento, tão subtil quanto modesta. Vi-o revirar os olhos quando o debate tomou o rumo da acusação e disse-me que estava a ficar com dores de cabeça. A Europa beneficiaria com mais descendentes espirituais de Kolakowski e de Konrád. Mesmo que alguns achem que ao dizer isto, por si só, já estou a ser arrogante e vaidosa. Por outras palavras, é tempo de me retirar e de me questionar.]

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