sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Fora do Eixo e a moralidade burguesa por poder e grana



O capixaba Augusto Ruschi foi um grande agiota. Há quem o odeie até hoje (ele morreu em 1986) em Santa Teresa (na serra capixaba) e provavelmente em outras localidades do Espírito Santo.

Foi um grande agiota... e agrônomo, ecologista, naturalista; um cara que como poucos estudou e conheceu os beija-flores e as orquídeas brasileiras.

Uma referência.

Há quem misture uma coisa com a outra: não pode ter sido um grande cientista se foi agiota; ou não pode ter sido agiota se foi um grande cientista.

A memória de Ruschi sobrevive até hoje – como a de muitos outros – sob o tacão da moralidade pública.

Malhação de Judas

Os ataques desta semana contra o coletivo Fora do Eixo se transformaram em viral na internet (especialmente no Facebook) e transformaram a Ong num Judas a ser malhado impiedosamente.

O Fora do Eixo tem seus pecadilhos:

- invadiu a seara do eixo (Rio e São Paulo);

- alastrou “seus negócios” para as periferias e por outras plagas (CO, NO, NE) que o eixo (Rio/São Paulo) julgava de sua propriedade, tal qual nos tempos do Imperador;

- Pablo Capilé, o criador do coletivo, apareceu numa foto ao lado do execrado José Dirceu.

Quem manda afinal (?)

Não por acaso, a razia contra o FdE teve início numa reportagem publicada no jornal O Globo (“O Globo sente o golpe e ataca os Ninja” - http://afalaire.blogspot.com.br/2013/08/o-globo-sente-o-golpe-e-ataca-os-ninja.html) no último final de semana.

Foi a senha para que gente que se sentiu ludibriada pelo FdE partisse para o ataque.

Elementar!

Como comentei em dois perfis de amigos no Facebook “Nada mais religioso que essa lutinha do bem (o niilismo modernoso) contra o mal (Ninja, Fora do Eixo, Movimentos Sociais). Demora muito não voltaremos ao animismo”.

O mantra

Um mantra rola solto nas redes sociais: “Um dia, Pablo Capilé pode ter manifestantes acampados em frente à sua casa. A Mídia Ninja vai cobrir?”.

É pouco provável, mas ouçamos o que diz Bruno Torturra, do Mídia Ninja (que faz parte do coletivo): “A leitura dela e de muita gente sobre o FdE não revela tanto sobre a rede quanto sobre a própria mentalidade automática à qual o FdE tenta resistir. Onde a ‘integridade’, como ela cobrou da rede, é medida, sobretudo por grana, ego, logotipos. Mais ligada a uma dinâmica econômica do que um real compromisso com a transformação e com a tolerância ao erro, ao vacilo, até ao calote que um processo tão sério como esse pode, e vai, gerar.”

Como dela, Torturra está se referindo a Beatriz Seigner, a cineasta que soltou o primeiro petardo contra o FdE no pós O Globo.

O que incomoda, afinal (?)

Muita coisa incomoda nos coletivos e nas organizações sociais.

Mas o que incomoda mesmo é que esse tipo de ação/comportamento tira as pessoas de sua vida de conforto, de seu mundinho burguês (ou pequeno burguês, como diriam os marxistas), da sua segurança que está plasmada na família, nos amigos, nos grupos de afinidade, nas leis e na moralidade pública.

Para serem heróis de verdade, os fora-do-eixo, os ninjas, as Mães de Maio deveriam se comportar tal qual os heróis, tipo Homem de Ferro, Mulher Maravilha, Super Homem e quetais.

Fortes, resolutos, moralmente corretos; caracteres onde não se encontra um único pecadilho.

São tudo isso, mas também frouxos, inúteis, pois nunca destroem os seus inimigos. Muito pelo contrário: estão relegados a com eles conviver por toda a eternidade.

Quem precisa de heróis babacas como esses?

Fora do Eixo

Lá por volta de 1987/1988 escrevi um texto para um jornal de Manaus (não tenho certeza qual, mais creio que para o Jornal do Commercio manauara) defendendo a tese de que se alguma coisa de relevante viesse a acontecer no cenário da cultura brasileira ela aconteceria fora do eixo (Rio/São Paulo).

Pois isso é o Fora do Eixo, um coletivo que se iniciou com uma parceria entre produtores culturais das cidades de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR).

Que horror, como diria Paulo Henrique Amorim.

E isso evidencia, desnuda em cores vivas o pecadilho apontado acima: o FdE nasceu fora e alastrou “seus negócios” para as periferias e por outras plagas (CO, NO, NE), plagas que o eixo (Rio/São Paulo) julgava de sua propriedade, provavelmente por direito divino.

Que horror!

Quem há de perdoar esse tipo de ousadia?

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