quinta-feira, 29 de agosto de 2013

As crendices bizarras de gente moderna e inteligente



Vi, ontem, muito rapidamente um trechinho de uma entrevista na GloboNews com um sujeito que ao que parece é artista.

Só não me pergunte que arte ele faz e nem o seu nome porque não sei.

O programa é um daqueles muitos de entrevista que a emissora mantem para preencher espaços vazios.

São programas (muitos deles gravados) que quase ninguém vê, e desconfio que nem mesmo a maioria dos entrevistados.

O cara era educado, razoavelmente culto; estava bem barbeado e bem penteado. Pelo que deu pra ver, suas roupas não foram adquiridas em qualquer liquidação de ponta de estoque.

Bem articulado, de pensamento rápido, com um português basicamente correto, o “artista“ disse que o mundo da política não será mais o mesmo depois das manifestações de junho.

Uma verdade absoluta daquelas!

Foi mais longe: disse que no ano que vem é que a coisa vai pegar (a coisa das manifestações) e que aí sim o mundo político (brasileiro) não será mais o mesmo.

Também já se escreveu por aqui que as manifestações devem aumentar ano que vem, muito por conta da Copa do Mundo e da eleição presidencial (e também para os governos estaduais), mas que o “mundo político não será mais o mesmo” daí em diante já é outra história.

A fé remove montanhas

Em 1975, o jornal Notícias Populares (hoje extinto) criou um monstro apavorante, o Bebê Diabo, que assustou por semanas a maioria dos paulistanos e dos paulistas. De ricos a pobres; de moradores da periferia aos dos Jardins; de gente letrada a analfabetos.

Uma senhora, em São Bernardo no Campo (na Grande São Paulo), dera à luz um menino de chifres e rabo, que saía voando pelos céus já poluídos da “maior metrópole brasileira”.

Quem para ele olhasse secava na hora e, portanto, morria.

De nada adiantava dizer aos “crentes” do Bebê Diabo que aquilo não passava de uma invencionice para vender jornal.

Eles sempre conheciam alguém que conhecia outra pessoa, que era amiga de uma terceira, cuja prima ouvira contar pelo seu namorado que a empregada da vizinha tinha visto o diabinho, secado e morrido.

Crença é crença, fé é fé e estamos conversados.

Fé, dominação e política

As crenças populares devem ter surgido com a humanidade como forma de explicar fenômenos naturais não-explicáveis; como forma de exploração e de dominação.

Muitas dessas crenças passam de geração para geração e perduram por anos, décadas e até séculos.

No Brasil circula pelas noites e pelos ônibus interioranos uma loura com um chumaço de algodão na boca.

Pela lourice da fantasma ela é importada, deve ter chegado por aqui com o portugueses, e já passou por banheiros de escolas, fundos de quintais e portas de cemitérios.

É possível dominar toda uma população, pelo menos durante certo tempo, na base de bizarrices como essa.

Quem nunca ouviu alguém dizendo que o capitalismo é o único sistema justo para se viver?

Ou que o comunismo é o único que permite que todos sejamos iguais e tenhamos as mesmas oportunidades para sobreviver nesta brevidade que é a vida?

Crença é crença, fé é fé e estamos conversados.

“É preciso ter fé na vida”

Onde se ligam a história do artista enfatuadinho – que o professor e filósofo Luiz Felipe Pondé identifica como “inteligentinho” – com a dos apavorados pelo Bebê Diabo?

Na fé, na crendice.

Nenhum deles, nem os crentes do bebê, nem o inteligentinho das manifestações, têm algo de concreto e de objetivo que dê sustança às suas crendices, que as legitime, mas mesmo assim acreditam piamente no que estão dizendo.

Quando os seus castelos de areia forem destruídos por uma vaga tsunâmica de realidade eles não irão se vexar de jeito algum.

Muito pelo contrário: estarão defendendo – com unhas e dentes - nova fé, novas crenças.

“É preciso ter fé na vida.”

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