quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A agressão aos médicos cubanos partiu da imprensa




Crédito da montagem: sítio Brasil 247

Embora parcial, está correta a avalição do sítio Brasil 247 – “Eles são responsáveis pelo corredor polonês?” - http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/113050/Eles-s%C3%A3o-respons%C3%A1veis-pelo-corredor-polon%C3%AAs.htm – de que jornalistas brasileiros foram os incitadores iniciais da xenofobia contra os médicos cubanos, como se vê neste momento.

É parcial porque os ataques aos médicos cubanos não se restringem aos citados Augusto Nunes e Reinaldo Azevedo (Veja) e Eliane Cantanhede (Folha de São Paulo) – veja o texto na íntegra logo mais abaixo.

Uma outra análise interessante aponta para a despolitização dos médicos brasileiros agressores; a baixa qualidade da informação que possuem e o desconhecimento da história.

Acrescente-se ainda uma formação precária – não humanista – desses profissionais (não só deles, mas de outras profissões também).

No Brasil se vai à escola não para se educar, mas para se formar em alguma coisa, ter uma profissão e arrumar um bom emprego.

Qualquer “indivíduo” que venha “disputar” o espaço com esses profissionais é de pronto hostilizado.

No caso cubano, acrescente-se também o viés ideológico, do tempo da guerra fria, coisa que, a rigor, já deveria estar no limbo da história.

Fecha o círculo a herança escravocrata brasileira que não admite que não-brancos participem plenamente da vida nacional.

Descendentes indígenas e afrodescentes no máximo são admitidos em funções subalternas, com baixa remuneração e nenhuma segurança social.

Daí que, como boa parte dos médicos cubanos é formada por “pretos”, a analogia com a escravidão – que na prática esses protestadores defendem – é automática.

Essa gente tem cara de empregada doméstica, como disse uma jornalista obscura de Natal, no Rio Grande do Norte.

Os bônus da civilização branca no Brasil, como se vê, é de posse de nacionais brancos.

Vamos ao texto do site Brasil 247.

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Não foi por explosão espontânea que os médicos cearenses chamaram seus colegas cubanos de "escravos, escravos!"; o ódio, a violência e o preconceito demonstrados na noite da segunda-feira 26 foram atitudes disseminadas, a partir do conforto das redações da mídia tradicional, por três colunistas: Reinaldo Azedo, Eliane Cantanhede e Augusto Nunes; assim como não existiria o nazismo sem o Mein Kampf, de Hitler, o corredor polonês de Fortaleza não ocorreria sem os jornalistas que gravaram no imaginário dos médicos o rebaixamento completo dos cubanos.

O que move o mundo são as ideias. Para frente ou para trás. A instalação do nazismo, na Alemanha dos anos 1930, foi precedida pela publicação do ideário de Adolf Hitler, o livro Mein Kempf. Na China comunista, Mao Tsé-Tung tinha o seu Livro Vermelho, de leitura obrigatória nas escolas. De ambos nasceram ideologias totalitárias, cegas aos direitos humanos, avessas à diversidade, pregadoras da violência.

Hoje, no Brasil, o conjunto dos ideais disseminados por alguns dos mais conhecidos colunistas da mídia tradicional aponta para um caminho análogo, sem volta, de interdição do debate, aviltamento do adversário, exclusão do diferente. Corteja o totalitarismo já superado pela sociedade brasileira.

"Escravos, escravos!". A palavra de ordem dos médicos cearenses contra seus colegas cubanos, que se preparavam para receber as primeiras noções sobre que Brasil é esse que eles vieram apoiar, não foi gritada por acaso. Essa figura foi gravada no imaginário coletivo dos médicos cearenses – e pode estar se multiplicando em outras regiões brasileiras – por três, em particular, colunistas adulados na mídia tradicional.

Do conforto de suas redações, Reinaldo Azevedo, primeiro, classificou em Veja os médicos cubanos, cujo trabalho é elogiado em todo o mundo no qual eles atuam em programas do tipo Mais Médicos, da Finlândia à África, de "escravos". Na Folha, a decana Eliane Cantanhede disse que os profissionais viajariam em "aviões negreiros". Augusto Nunes, para não ficar atrás, escreveu em seu blog que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, se tornou uma "princesa Isabel às avessas". Todos, sem exceção, com a mesma imagem de degradação do ser humano.

Não ocorreu à trinca de colunistas circunscrever suas diatribes ao irmãos Castro, Fidel e Raúl, ou a Karl Marx e Frederic Engels, os grande teóricos do comunismo. Não. Eles pularam na jugular de cada um e de todos os médicos cubanos que atenderam sob supervisão da Organização Panamericana de Saúde, ao chamamento oficial do governo brasileiro.

Na leitura de Azevedo, Eliane e Nunes, depreende-se que eles são "escravos" porque merecem. Vivem em Cuba porque são covardes para enfrentar a sua ditadura. Isso de um lado. Noutra hipótese, felizes, percorrem o mundo para agirem como arautos do socialismo, espiões à luz do dia, propagandistas de uma ideologia ultrapassada. Nenhuma linha sobre o trabalho que os médicos cubanos desempenharam no Haiti pós terremoto que devastou o país em 2010, classificado de "maravilhoso" por seus colegas de primeiro mundo (finlandeses). Nada sobre a ação pacificadora na África, na década de 1970. Nenhuma referência ao mundialmente exemplar programa de medicina da família executado dentro da própria Cuba, que por este tipo de expediente tem um Índice de Desenvolvimento Humano maior que o do Brasil. Zero.

Igualmente, os três colunistas não comentaram sobre os médicos de outros países – Espanha, Portugal, Argentina, Itália – que igualmente aceitaram a proposta do governo brasileiro para preencher vagas que os médicos brasileiros recusaram – com salários de R$ 10 mil por mês. Afinal, por que entrar em questões mais complexas para análise, se o mais importante é se divertir pela humilhação aos cubanos?

Sabe-se que, por este tipo de posicionamento rasteiro, a mídia tradicional está se afogando pela soma de dívidas demais e leitores de menos. Mas guarda-se ainda, é claro, um tipo de influência muito útil os momentos mais intensos de polaridade ideológica. Nessas horas, diante de programas como o Mais Médicos, que, efetivamente, podem mudar para melhor o padrão de atendimento de saúde nos rincões do País. Os mesmos rincões que não recebem médicos desde seu desbravamento.

Os três colunistas poderiam usar seus espaços para discutir, porque, afinal, a chamada classe médica jamais, em tempo algum, como um todo, voltou seus esforços para o Brasil real. A orientação da medicina brasileira é cobrar, e caro, pelo menor atendimento. Os médicos querem os grandes hospitais, jamais os pequenos prontos-socorros. Podia-se alegar, até aqui, que faltava incentivo para o avanço pelas artérias do País, mas agora não há mais. A remuneração oferecida pelo governo superou todas as expectativas. O programa Mais Médicos, por outro lado, nada mais é que uma cópia escarrada do que já existe em diferentes partes do mundo, notadamente nos países mais avançados, como Inglaterra e Alemanha. Lá como cá foi preciso importar profissionais para superar carências. O que fazer, então, para dizer que o Mais Médicos não presta?

Ocorreu aos três colunistas chamarem os cubanos – esquecendo-se de todos os outros – de escravos. Uma distorção não apenas da situação que eles vivem em Cuba, mas uma covardia contra cada um e todos os integrantes do grupo recém-chegado. A opção foi criar um clima hostil, de guerra, de oposição total e completa à presença deles aqui. Viraram a mira de seus canhões para os mais fracos e indefesos.

Após chamar os profissionais de escravos, restará aos colunistas continuar o linchamento moral sobre eles. Poderiam, como Gandhi ou Luther King, atuarem pela conciliação entre o homens, mas se inspiraram em Hitler e Mao para disseminar o ódio. O resultado foi visto no Ceará. 

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