segunda-feira, 15 de julho de 2013

O que é privado deve ser respeitado?



Em meados dos anos 70, numa viagem por terra de Cotia (SP) até Araguaína (então Estado de Goiás) o que mais chamou atenção foram as cercas ao longo da Belém-Brasília.

Fora o leito de estrada e uma defesa de mais ou menos 10 metros de cada lado, o restante estava tudo cercado com arame farpado.

Anos mais tarde, saindo de Teresina (PI) rumo a Natal (RN) a mesma cena, com uma curiosidade: quilômetros e mais quilômetros de rodovia, e era sempre possível ver, de quando em quando, uma placa que indicava ser a terra do “doutor fulano de tal” – o mesmo.

Nada que fosse muito diferente de São Paulo e de outras áreas brasileiras. Já tinha visto isso também, no final do anos 60, viajando para Rio Verde (GO).

Um País todo privatizado, com donos – alguns ostentando orgulhosamente seus nomes, como o caso do Piauí.

Na medida do crescimento do espaço privado, diminuiu-se – na cidade e no campo – o espaço público.

Espaço de quem?

Para os animais ditos irracionais e os índios (especialmente aqueles com pouco ou nenhum contato com a “civilização”) o privado não é um espaço a ser respeitado.

Nós, os que fomos “catequizados” pelo discurso liberal, é que dividimos e aceitamos a natureza – modificada ou não – dividida entre a coisa pública e a privada.

O respeito que temos pelo privado é tamanho que durante qualquer tipo de manifestação reivindicatória – como aquelas que ocorrem no Brasil, neste momento – há um esforço para se respeitar o espaço privado.

Quem ousa desobedecer, é logo identificado como “vândalo” e está sujeito não apenas à repressão policial, como à reprimenda dos próprios manifestantes.

O espaço privado é o santuário do capitalismo.

Nunca nos fazemos duas perguntinhas essenciais:

- como os espaços privados se constituíram?

- por que os espaços privados se constituíram?

Preferimos manter a ordem e seguir cordeira e cegamente à frente.

Espionagem: o escândalo da hora

O escândalo da hora é mundial: espionagem feita por governos com a complacência e o ativismo dos grandes conglomerados de difusão de informação como Facebook, Google, Microsoft etc.

Eles espionam a todos e a tudo.

Um sem número de propostas têm aparecido para fazer frente a essa invasão da privacidade (individual): leis mais duras, processos custosos, pedidos de esclarecimento, novas redes “mais confiáveis”.

Mesmo que tudo isso venha a ser implementado e realizado nada garante que a minha conversa num desses MSN na vida não será bisbilhotada, analisada e catalogada.

Mato sem cachorro

Há saídas para essa rapinagem toda?

Pode-se dizer, de início, que não.

Ou há: basta deixar de acessar a internet, de ter cartão de crédito, de possuir linhas telefônicas etc. etc. e tal.

Faremos isso?

É provável que um ou outro faça, mas a maioria não fará.

Estamos num mato sem cachorro?

Mato com cachorro

Assim como deveria ocorrer, mas não ocorre, com os espaços privados, a ação mais sensata é invadir as redes da maneira mais intensiva que cada um de nós possa fazer. Usá-las até a sua exaustão.

É dar novos usos às redes, levá-las à loucura; entulhá-las de informação, de postagens, do que for possível fazer.

Tanto a democratização da terra – urbana ou rural -, quanto a democratização dos meios (mídia) não virão como presentes de natal. Devem ser conquistadas.

Os espaços devem ser invadidos, devem ser tomados.

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