domingo, 14 de julho de 2013

O problema dos filósofos é falta de foco (?)



Tem-se, neste afalaire, muito elogiado o professor e filósofo Wladimir Safatle, uma das pessoas que “melhor lê” a atualidade do mundo e especialmente do Brasil.

Assisti ontem a sua entrevista ao programa Juca Entrevista, da ESPN (http://www.espn.com.br/programa/jucaentrevista), e não gostei muito do que vi e ouvi.

Ao falar das manifestações brasileiras de junho, Safatle fez uma ligação, digamos, um tanto forçada com outras manifestações que pipocam pelo mundo todo, especialmente na Europa e no norte da África.

Para dar substância à sua argumentação, Safatle diz que foi ver de perto o que acontecia nas ruas de lá, e viu similaridades entre elas.

Se o filósofo conheceu “de perto” o que andou ocorrendo na Europa e no Norte da África, digo, sem nenhuma modéstia, como sempre, que conheço bem o que ocorre no País, e não vejo essa aproximação de manifestações diferentes tão claramente assim como ele vê.

Temo que ele esteja se deixando seduzir pela “(pós) modernidade" das manifestações.

Mas temo por uma outra coisa mais profunda: a falta de foco correto sobre o que acontece no mundo.

Aliás, esse é um problema da filosofia – e o que tem  corroído o seu prestígio nas últimas décadas.

A filosofia assim como o exercício do jornalismo (com as suas devidas e profundadas diferenças) são generalistas de mais para poder captar o instantâneo dos fatos e acontecimentos.

Ao querermos ver a coisa na sua complexidade, acabamos não enxergando nada, especialmente aquelas nuanças que acabam por explicar muita coisa ou mesmo o todo.

É preciso recortar

As manifestações europeias – Espanha, Portugal, Inglaterra, e também na Grécia e na Turquia – têm como base de contestação a crise econômica e a falência dos projetos neoliberais.

Quem sai às ruas nesses países são assalariados, ex-assalariados, pequenos comerciantes e gente “sem futuro”, assustada com a falta de perspectiva imediata.

Se formos aos EUA e aos seus occupy vamos ver uma reação forte à concentração de renda, ao comércio internacional que solapa a vida de quem é pobre lá e no exterior e ao alijamento de parte da classe média norte-americana dos bônus do capitalismo.

No norte da África, mesmo nos países dito “laicos”, há um forte componente religioso nas manifestações, uma reação ao arcaísmo das administrações públicas e uma questão fundamental: a mulher, que em alguns países sequer pode dirigir um simples carro.

Recorte brasileiro

Não se tem nenhum desses componentes nas manifestações brasileiras. Muito pelo contrário.

É preciso, portanto, perceber quem foi para ruas por aqui; que camadas fazem parte do grosso dos quase 2 milhões de manifestantes brasileiros.

Dessa forma, é necessário distinguir os grupos e as suas reivindicações (quase sempre conflitantes).

Grupo originário – quem deflagrou as manifestações de junho no Brasil foi o Movimento Passe Livre, na sua luta que é mais do que lutar pela gratuidade do transporte de massa, mas que tem como fator maior a mobilidade urbana.

Engrossaram esse caldo os descontentes com os investimentos do governo federal na Copa do Mundo e nas Olimpíadas do Rio de Janeiro (isso também diz respeito à mobilidade urbana) e um grupo pequeno, mas bastante poderoso, que se contrapõe à concentração da mídia nas mãos de poucos grupos econômicos.

Segundo grupo (majoritário) - após as agressões absurdas da PM paulista no 13 de junho, foi para as ruas um enorme grupo com bandeiras difusas (chamado pejorativamente de “coxinhas”) que se expressava contra tudo: desde o Lula e o Renan Calheiros, passando pela corrupção, pela falta de investimento em educação e saúde, até a ANTT (que a maioria sequer sabe o que venha a ser) e o comunismo (sic).

Grupo dos “baderneiros” – como não poderia deixar de ser, as manifestações foram “contaminadas” por grupos extremistas, à direita e à esquerda, essa espécie de “sal da terra” dos protestos de rua – em todo lugar e em todos os tempos – que acabam por desnudar a fragilidade de quem se manifesta, e a brutalidade e a hipocrisia de quem reprime.

O recado das ruas

Não entender essas peculiaridades todas é não entender o que está acontecendo, e parece que isso acabou por fragilizar as análises de Safatle.

Entendo como ele que as manifestações brasileiras deverão prosseguir, especialmente no ano que vem, pois a resposta dada pelas “autoridades” é ridícula e insatisfatória.

Mas não creio – e não há porque crer – que o segundo grupo – os “coxinhas” – tenham estofo para sustentar uma luta de longo prazo contra o sistema, até porque eles não foram às ruas – diferente do que ocorreu nos EUA, na Europa e no Norte da África – para desestabilizar e suplantar o sistema capitalista vigente.

Muito pelo contrário. Foram para as ruas para melhorar, moralmente, o que está aí posto.

Também concordo com Safatle quando ele fala que o futuro imediato vai explicitar uma luta acirrada entre a direita e a esquerda – coisa que muita gente dava como morta.

Resta saber como a esquerda, eternamente dividida e sempre se perdendo em picuinhas entre grupelhos, será capaz de enfrentar a direita, que se é fragmentada, na hora H costuma se juntar por um “bem comum”.

Os “coxinhas” vão participar dessa pendenga?

Claro que não.

Falta a esse grupo (enorme grupo) estofo intelectual, leitura, vivência com o debate, e, especialmente, capacidade de partilhar.

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