domingo, 14 de maio de 2017

Direito à pluralidade religiosa



[Segundo reflexão do teólogo francês Claude Geffré, a questão da liberdade de opção religiosa unicamente se sustenta se a pluralidade religiosa for considerada não apenas como uma “realidade de fato”, mas também como uma “realidade de direito”. Apesar de essa pluralidade ser aceita como fato incontestável, por estar sempre presente em todas as épocas e culturas da humanidade, ela, na verdade, existe como um direito de todos, por ser manifestação do plano divino.
Corroborando isso, podemos encontrar, na tradição védica (hindu), as afirmações de que ekam sad vipra bahuda vadanti: “O Real é único, mas os sábios descrevem-no de várias formas.” (Rig Veda 1.164.46)

vadanti tat tattva-vidas tattvam yaj jnanam advayam
brahmeti paramatmeti bhagavan iti shabdyate

“Os videntes e conhecedores da Verdade não dual e plena de conhecimento descrevem-na como o Ser Absoluto [Brahman], a Alma Suprema [Paramātman] e a Pessoa Todo-opulenta [Bhagavan]”. (Bhagavata Purana. 1.2.11)
Quando se parte da premissa de que o conceito de Deus se refere, em igualdade, ao conceito do Absoluto ou da Realidade última, pode-se concluir que só existe uma única Divindade. Mas, quando as experiências com o Divino acontecem fatualmente, no contexto da história, elas se manifestam diferentemente, nas várias tradições e culturas religiosas, como experiências singulares.
Nenhuma fé ou religião pode ser considerada absoluta ou exclusiva, pois toda fé é relativa, na medida em que ela não aponta para si própria, mas para a Divindade, como seu fundamento e fonte, como o único Absoluto. Qualquer religião que se pretenda absoluta, em detrimento de todas as outras, nega o próprio conceito do Absoluto, como realidade única sem um segundo.
Sri Krishna afirma na Bhagavad-gita (4.11):

ye yatha mam prapadyante tams tathaiva bhajamy aham 
mama vartmanuvartante manusyah partha sarvashah

“Na medida em que eles se voltam para Mim, assim também Eu os aceito, ó filho de Partha; todos seguem o Meu caminho sob todos os aspectos.”
Isso significa que Deus Se relaciona com todos os seres de acordo com sua realização, sinceridade e desejo de amor e serviço, e não de acordo com a sua afiliação a uma entidade religiosa. Certamente, toda e cada instituição religiosa genuína tem sua pertinência própria, na medida em que é considerada mediação da experiência do Divino para seus adeptos. Contudo, elas deveriam ser percebidas como sendo diferentes paradigmas do reencontro do Divino com o humano, e tendo a Divindade Suprema como seu centro e objetivo principal. Essa é a fórmula da paz.]
Lokasaksi Dasa

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

“O Agronegócio matou o Grande Sertão”



[Num distante 11 de Setembro, nos fins do Século XIX, nasceu a pequena Maria Deodorina. Batizada em Itacarambi, nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo. Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins é o nome completo da personagem Diadorim, amor secreto do circunspecto e reflexivo Riobaldo, ou do jagunço Reinaldo, companheiro de armas do bando de Joca Ramiro.
Por coincidência, ou por alguma outra razão oculta na mente do genial Guimarães Rosa, Diadorim nasceu justamente no dia do Cerrado. E, portadora de uma rara sensibilidade, Diadorim conseguia enternecer o coração do jagunço matador de gente com os brilhos da noite, a beleza das muitas flores e a alegria das aves. Se Riobaldo passou a enxergar a beleza do Sertão, muito se deveu à maneira como os olhos verdes de Diadorim viam o verde do mundo, mesmo em uma realidade de sangue e ódio.
Embora muitas pessoas ainda imaginem que o Romance Grande Sertão: Veredas tenha como cenário o semiárido (talvez pelo uso do termo “Sertão”), praticamente todo o enredo se passa nos Cerrados de Minas Gerais, com incursões na Bahia e em Goiás. Sertão era o ermo, a solidão. Na cosmologia Rosiana, o Sertão é o âmago do coração, o ermo dos sentimentos, o isolamento da alma, a sequidão da existência, enquanto as Veredas são os caminhos que permitem que esse interior oculto e sombrio seja alcançado, tocado e refrescado pelas águas cristalinas que alegram a alma e nutrem os buritis, donos de toda a beleza. O Romance Grande Sertão: Veredas é considerado um dos 100 livros mais importantes da humanidade.]
Leia o texto completo de Reuber Brandão em:

sábado, 8 de outubro de 2016

A armadilha quântica do tempo no filme 'Arq'

A armadilha quântica do tempo no filme 'Arq': Em um cenário distópico num mundo em crise energética e ambiental, um engenheiro cria uma máquina que produz energia ilimitada. Mas q...

terça-feira, 24 de maio de 2016

Ninguém quer o Michel Temer no baile de debutantes


Ô vida marvada, hein Michelznho – foto: www.vegetall.com.br

The Independent, The New York Times, Financial Time, The Guardian – será que todos vivaram comunistas, bolivarianos?
Todos eles chamam o GOLPE de GOLPE.
Mais discretos, BBC e El País apenas repetem o que os outros dizem (com destaque): É GOLPE!
A diplomacia francesa já mandou avisar: o Brasil está fora das mesas de negociações. Pode até chegar qual cachorro de rua que espia aquelas assadeiras de frango de padaria. Mas só pode babar e lamber os beiços.
Barack Obama não disse nada, mas se quisesse dizer teria feito como seu antecessor que em menos de 24 horas deu seu aval ao GOLPE contra o Hugo Chaves.
Macri, o presi da Argentina, como bom milongueiro, fez que disse, mas nada disse. Tá parecendo o Messi.
Falando em los hermanos, em sua visita a mi Buenos Aires querido, Zé Serra, o agora diplomata, foi recebido com uma chuva de “bolinhas de papel”.
Alguém ainda se lembra da campanha da primeira eleição de Dilma Rousseff?
Michel Temer, o interino, está parecendo aquele adolescente que não gosta de tomar banho, usa roupa suja e tem uma centena de espinhas na cara.
Ninguém quer ir ao baile de debutantes com ele.

domingo, 24 de abril de 2016

A cusparada do Zé de Abreu e o processo civilizatório brasileiro




Nem vou lá muito com a cara do ator-militante José de Abreu.
Ele tem lá uma bela história de resistência à ditadura militar, mas isso não lhe é passaporte para dizer a montanha de sandices que costuma dizer nas redes sociais (mais que em entrevistas).
Mas ele agiu correto ao dar a cusparada no casal de agressores do restaurante japonês em São Paulo.
Foi até ameno. Poderia atirar, por exemplo, um copo na cabeça do macho do duo e dar um beliscão nos peitos da fêmea.
Repetiu o que fez Jean Wyllys, recente, com Bolsonaro, o insano.
Estiveram ambos certos e corretos.
É preciso reagir sempre. Atitudes complacentes e passivas não ajudam em nada. Pelo contrário: dão força ao crescer da onda de intolerância.
Reagindo podemos chegar a uma conflagração?
Pode ser! Mas e daí?
O interessante é ler e ouvir o que diz a insanidade, ao qualificar a reação de Zé de Abreu como um marco da incivilidade de petistas, esquerdistas, anarquistas, comunistas e blábláblá.
Xingar o cara de “ladrão” e a sua parceira de “vagabunda” vale, faz parte. Reagir não!
Tristes trópicos”!
Por muito menos, um amigo chamado Galvão, no balcão de um boteco em Cotia (SP), deu uma tapona na cara de um sujeito que lhe enchia a paciência, e este, surpreso, não conseguiu reagir.
A história acabou por aí.
Das civilidades
Quando éramos adolescentes costumávamos dizer que Norodom Sihanouk (rei do Camboja em dois períodos - de 1941 a 1955 e de 1993 a 2004) criara um ótimo método para civilizar o seu povo: varadas.
Cuspiu no chão: 5 varadas; ofendeu outro com palavrão: 10 varadas; urinou na rua: 20 varadas.
A brincadeira não nos serve de consolo e nem de exemplo, pois coisa parecida ocorreu por aqui com índios e negros, e ainda acontece com quem ousa desafiar a bandidada que domina o tráfico (o que é uma antecipação do assassinato).
Mas coisa parecida também foi imposta na breve presidência de Jânio Quadros e suas multas contra cuspir no chão e usar biquíni nas praias.
Das humilhações
Cuspir e dar uma tapa na cara são atos de humilhação.
Por mais que a “vítima” reaja e até, eventualmente, vença da briga, vai ter de carregar pelo resto da existência a marca do desprezo e do escárnio.
São fardos ruins de carregar.
Wyllys, Abreu e Galvão até foram “bonzinhos” e complacentes.
Outro(s) de pavio mais curto poderia(m) ter atirado em seus agressores.
C'est La Vie, baby!
Referências