segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Viagen


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Carta do II Seminário Alcântara: a base espacial e os impasses sociais



Alcântara/MA, 25 de novembro de 2017. 
As Comunidades Quilombolas de Alcântara, o Movimento dos Atingidos Pela Base Espacial de Alcântara (Mabe), o Movimento de Mulheres Trabalhadoras de Alcântara (Momtra), o Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Alcântara - (STTR/Alcântara) e o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Município de Alcântara (Sintraf/Alcântara) e demais organizações da sociedade civil, juntamente com representantes da Comissão de Quilombos da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e da Comissão de Direitos Humanos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), do Programa de Pós-graduação em Cartografia Social e Política da Amazônia da Universidade Estadual do Maranhão (PPGCSPA/Uema), do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA), do Projeto Antirracismo na América Latina numa Era Pós-Racial da Universidade de Manchester (Lapora/UManchester), do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), do Fórum por Direitos e Combate à Violência no Campo (FDCVC), da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras do Estado do Maranhão (Fetaema), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra/MA (MST/MA), da União de Negros pela Igualdade no Maranhão (Unegro/MA), da Congregação Irmãs de Notre Dame, da Justiça Global (JG), da Defensoria Pública da União/Defensor Regional de Direitos Humanos no Maranhão (DPU/MA) organizações sociais que historicamente se colocam na defesa dos direitos humanos, territoriais e culturais e do Território Quilombola de Alcântara, reunidas no II Seminário Alcântara: a Base Espacial e os Impasses Sociais, ocorrido nos dias 24 e 25 de novembro de 2017 no Auditório Instituto Federal do Maranhão, Campus Alcântara, vem a público manifestar seu repúdio diante do avanço ilegal das negociações para cessão da Base Espacial de Alcântara aos Estados Unidos e outros países conforme têm veiculado diversos meios de comunicação e falas 1 institucionais de agentes do governo federal , e reafirmar e reconhecer o direito dos Quilombolas de Alcântara ao seu território tradicional e historicamente ocupado e utilizado, conforme mandamento constitucional, e de outros dispositivos legais nacionais e internacionais, e expor as seguintes preocupações e reivindicações:
1. Exigimos do governo federal a imediata titulação do território quilombola de Alcântara, conforme o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação publicado em 2008 e respeito à institucionalidade e competências estabelecidas no processo de regularização do território quilombola de Alcântara, entre os quais destacamos, o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da CF/88, o Decreto 4887/2003, a Convenção 169 da OIT sobre Povos Indígenas Tribais, ratificada pelo Estado brasileiro em 2002, sobretudo, o direito de Consulta;
2. A proposta de cessão da Base Espacial aos interesses estrangeiros afronta a soberania nacional, configura desvio de finalidade da Base Espacial, uma vez que se afasta da precípua função de desenvolvimento da tecnologia aeroespacial nacional e sucumbe aos interesses estrangeiros;
3. Solicitamos, com base na CF/1988, na Lei de Acesso a Informação e na Convenção nº 169 da OIT, o acesso prévio às tratativas e documentos inerente às negociações de um suposto Acordo com os Estados Unidos para uso da Base de Alcântara, conforme veiculado por diversos meios de comunicação. RESSALTAMOS que a negativa do governo federal em estabelecer um debate transparente, franco, honesto e justo em torno dessa questão com os quilombolas de Alcântara e com a sociedade brasileira é na realidade uma atitude dolosa que busca lesar os direitos dos quilombolas alcantarenses a soberania do povo brasileiro, inclusive a soberania tecnológica. É de se registrar ainda, esta deliberada omissão é uma característica típica de governos autoritários e ditatoriais. É preciso primar pelo relevo da institucionalidade, da participação social, do acesso à informação e o respeito às garantias e direitos fundamentais, características estas, de um Estado democrático;
4. Utilizar-se do argumento de sigilo tecnológico e militar, ou mesmo da defesa da soberania nacional, para violar direitos assegurados e alijar as comunidades quilombolas e a sociedade brasileira do bom debate já não se sustenta, pois, se assim fosse, não se estaria renunciando de um território geopoliticamente estratégico, tampouco, renunciando a Base Espacial de Alcântara e entregando-os aos interesses estrangeiros;
5. Ademais, se esta proposta for levada a cabo se converterá em irreparáveis danos aos direitos territoriais das comunidades quilombolas de Alcântara, sobretudo, na autogestão do território, o que implicaria enormes retrocessos aos direitos historicamente conquistados por meios dos tratados internacionais de direitos humanos tais como: o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e Pacto de São José da Costa Rica (Convenção Americana sobre Direitos Humanos), ambos os documentos legais ratificados pelo Estado brasileiro;
6. Portanto, não se admite sob quaisquer pretextos e argumentos a possibilidade de novos deslocamentos das comunidades quilombolas de Alcântara. Não se admite também a expansão da base espacial sobre o litoral alcantarense, que poderá afetar aproximadamente 50 comunidades. Não cederemos nenhum milímetro do nosso Território Quilombola de Alcântara para esse projeto de expansão! Não renunciamos a direitos. Não negociamos direitos!
7. Exigimos a elaboração do Estudo de Impacto de Ambiental e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental, devidamente acompanhado do Estudo de Componente Quilombola do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). É inadmissível que o CLA funcione há 37 anos sem licença ambiental, afrontando diariamente a Constituição Federal de 1988;
8. Solicitamos do Governo do Estado do Maranhão a formalização de um pedido de desculpas ao povo quilombola de Alcântara em razão da publicação do decreto de desapropriação nº 7820/80 do território de Alcântara para implantação da Base Espacial. O Estado do Maranhão foi o primeiro fiador desse projeto durante o regime militar expondo, dessa forma, os quilombolas às atrocidades e violações perpetradas pelos militares, razão pela qual, solicitamos uma audiência com o Exmo. Governador do Estado do Maranhão, Flávio Dino, para discutir esta proposta e demais questões referentes à possível cessão da Base aos Estados Unidos;
9. exigimos do Estado do Maranhão e do Governo Federal, a imediata eletrificação da Ilha do Cajual, único território quilombola de Alcântara sem luz elétrica.  A referida ilha se encontra na região onde está localizado o Porto do Cujupe que é administrado pela Emap (Empresa Maranhense de Administração Portuária), cujo orçamento e responsabilidade social deve, no nosso entender, incluir a eletrificação dessa ilha, sem prejuízo das competências e responsabilidades dos demais órgãos;
10. Denunciamos ao Estado brasileiro a situação de violência atualmente experimentada pela comunidade quilombola de Tiquara, em Alcântara, que vem sofrendo ilegalmente as investidas de uma pessoa estranha à comunidade (conhecido como Pastor Edilson), que sob o falso manto de um projeto de educação realizado em parceria com o Governo do Estado do Maranhão e instituições privadas de ensino, usurpa o território daquela comunidade, usurpa o Território Quilombola de Alcântara e tem submetido os quilombolas daquela comunidade a situações humilhantes e constrangedoras, inclusive, com prisões ilegais de quilombolas. Portanto, exigimos imediatas providencias das autoridades do Estado, do Governo Federal e do Ministério Público Federal para investigar a situação e devolver o território à comunidade de Tiquara;
11. Que sejam resgatadas, atualizadas e implementadas, com a participação e consulta, nos termos da Convenção 169, as ações de políticas públicas resultado dos trabalhos desenvolvido no âmbito Grupo Executivo Interministerial de 2004 a 2006;
12. Reafirmamos o compromisso de dar continuidade às ações em trâmite na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH/OEA) da Organização dos Estados Americanos e na Organização Internacional do Trabalho contra o Estado brasileiro em função das violações de direitos humanos, culturais e territoriais das comunidades quilombolas de Alcântara no processo de implantação e gestão do CLA, inclusive, com os novos fatos de violações ora experimentados em Alcântara;
13. Reuniremos todos os nossos esforços para denunciar em todas as instancias nacionais e internacionais quaisquer tentativas de reduzir, retirar e lesar nossos direitos territoriais. Jamais admitiremos retrocessos!
14. Que o Ibama, a Sema/MA e o Ifma/Campus Alcântara (este, na condição de parceiro) realizem ações educativas, em parceria com as comunidades, com vistas a estimular a preservação ambiental no Território Quilombola de Alcântara;
15. Que a Prefeitura Municipal de Alcântara, adote medidas de implementação da política de resíduos sólidos para tratamento do lixo produzido no município, inclusive, pelo Centro de Lançamento de Alcântara, pois, o atual lixeiro funciona de forma inadequada, expondo as pessoas aos mais diversos riscos a saúde e com sérios danos ao meio ambiente;
Não poderíamos encerrar sem manifestar nosso total REPÚDIO ao voto do Ministro do STF, Dias Toffoli, proferido no ultimo dia 09 de novembro de 2017 no âmbito da ADI nº 3239/2004, cujo teor nega a trajetória histórica, social e cultural do povo quilombola ao longo da construção deste país. O conteúdo deste voto significa o mais cruel racismo institucional da história recente e remonta um lamentável cenário colonialesco que intenta reavivar o império da propriedade privada e negar o território histórica e tradicionalmente ocupado às gerações futuras do nosso povo. 
Por fim, reafirmamos o irrenunciável compromisso de lutar pela permanência, das comunidades quilombolas de Alcântara no seu Território Quilombola na sua inteireza e plenitude, e Repudiamos veementemente toda e qualquer iniciativa desse governo federal golpista que busca cedê-lo aos interesses estrangeiros, comerciais e militares ameaçando, assim, nossa permanência no território, a soberania nacional, o direito destas comunidades a autogestão e autodeterminação sob seu território. Nem direito a menos, nenhum Quilombo a menos! 
Atenciosamente,
Comunidade Quilombola de Arenhegaua.
Comunidade Quilombola de Baixa Grande.
Comunidade Quilombola de Brito.
Comunidade Quilombola de Cajiba.
Comunidade Quilombola de Cajueiro I.
Comunidade Quilombola de Canelatiua.
Comunidade Quilombola de Espera.
Comunidade Quilombola de Goiabal.
Comunidade Quilombola de Itaaú.
Comunidade Quilombola de Mamuna.
Comunidade Quilombola de Marudá.
Comunidade Quilombola de Mato Grosso.
Comunidade Quilombola de Mocajubal II.
 Comunidade Quilombola de Oitíua.
Comunidade Quilombola de Pacurí.
Comunidade Quilombola de Peptal.
Comunidade Quilombola de Peroba de Cima.
Comunidade Quilombola de Peru.
Comunidade Quilombola de Ponta D’ Areia.
 Comunidade Quilombola de Santa Maria.
Comunidade Quilombola de Santana.
Comunidade Quilombola de Santo Inácio.
Comunidade Quilombola de São João de Cortes.
Comunidade Quilombola de São Maurício.
Comunidade Quilombola de Tiquara.
Comunidade Quilombola de Trajano.
Comunidade Quilombola de Vista Alegre.
Movimento de Mulheres Trabalhadoras de Alcântara (Momtra).
Movimento dos Atingidos Pela Base Espacial de Alcântara (Mabe).
Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Município de Alcântara (Sintraf/Alcântara).
Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Alcântara - (STTR/Alcântara).
Comissão de Direitos Humanos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
 Comissão de Quilombos da Associação Brasileira de Antropologia (ABA).
Congregação Irmãs de Notre Dame.
Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH).
Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).
Defensoria Pública da União/ Defensor Regional de Direitos Humanos no Maranhão (DPU/MA).
Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras do Estado do Maranhão (Fetaema).
Fórum por Direitos e Combate à Violência no Campo (FDCVC).
Justiça Global (JG).
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra/MA (MST/MA).
Programa de Pós-graduação em Cartografia Social e Política da Amazônia da Universidade Estadual do Maranhão (PPGCSPA/Uema).
Projeto Antirracismo na América Latina numa Era Pós-Racial da Universidade de Manchester (Lapora/UManchester).
Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA).
União de Negros pela Igualdade no Maranhão (Unegro/MA). 
Nota 1
Sobre as notícias na mídia, consultar: EUA usarão Centro de Alcântara para lançar foguetes no Maranhão, diz ministro Ministério das Relações Exteriores firmou acordo com os EUA, que deve ser o 1º país a utilizar o centro. França, Rússia e Israel, também demonstram interesse na estrutura. Disponível em: https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/eua-usarao-centro-de-alcantara-lancar- foguetes-no-maranhao-diz-ministro.ghtml acessado as 08h50min em 27/09/2017; Jungmann: Centro de Alcântara precisa 1 de mais área para ser economicamente viável. Disponível https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2017/05/31/interna_politica,873096/jungmann-centro-de-alcantara-precisa- de-mais-area-para-ser-economicam.shtml acessado as 08h58min em 27/09/2017; Quatro países manifestaram interesse em parceria com o Brasil no CLA do Maranhão. Disponível em: http://www.defesa.gov.br/noticias/30060-quatro-paises- manifestaram-interesse-em-parceria-com-o-brasil-no-cla-do-maranhao acessado as 09h11min em 27/09/2017; Governo quer em:  retomar plano de ampliação da base de Alcântara. em: Disponível http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/05/1889035-governo-quer-retomar-plano-de-ampliacao-da-base-de- alcantara.shtml. Acessado em 27/09/17 acessado as 09h17min.; Acordo sobre base de lançamento de Alcântara vai ao Congresso em maio. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2017/04/1872858-acordo-sobre-base-de- lancamento-de-alcantara-vai-ao-congresso-em-maio.shtml acessado às 09h37min.

Meirelles tem o direito de sonhar



Henrique Meirelles, ministro da Fazenda de Temer, e que prestou “relevantes” serviços ao PT, via Lula, está tentando escantear o tucano Geraldo Alckmin na corrida à presidência ano que vem.
Bom seria para Meirelles se o único de seus problemas fosse Alckmin. 

Meirelles ainda tem de se ver com Marina Silva (que sempre deixa os petistas apavorados) e Jair Bolsonaro, isso sem falar em Lula.

Meirelles e Temer querem nos fazer acreditar que a tal da “recuperação da economia brasileira” é pra valer e que, portanto, servirá de alavanca para a candidatura meirellista.
 
Apesar de alguns bocós (principalmente empresários) acreditarem na “recuperação da economia brasileira”, o que se viu até agora foi um pibinho mixuruca, que a ser mantido como está a economia brasileira vai se recuperar mesmo, mas daqui a uns 450 anos.

Arrumadinho


Insetos


terça-feira, 28 de novembro de 2017

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

PALESTRA: “Uirá - Sabedorias ancestrais indígenas, asiáticas e neurociências”



Apresentação do projeto de diálogos cosmológicos-educacionais, com performance musical e presença de representantes indígenas e não indígenas.
Local: SVM
Palestrantes: Prof. Dr. Arthur Shaker faz parte do Núcleo Neurociências, Mindfulness e Saúde - SP/ BH e é professor do Programa de Meditação Voltada Para Saúde - Faculdade de Saúde Pública USP e Alvaro Tukano é Diretor do Memorial dos Povos Indígenas.
Informações
Início :     12/08/2017 - 18 horas
(61) 98481-2187
SGAN 909, Bl. E, Asa Norte, Brasília - DF (Próximo ao Uniceub)

Mostra mundo de cinema


segunda-feira, 31 de julho de 2017

“Ateísmo na atualidade”




Alunos do IBEV entrevistam Chandramukha Swami.

[Esta entrevista foi conduzida pelos alunos Mateus Moreira, Radesh Dasa e Silvio Pinto, da primeira turma do Curso de Estudos e Práticas Monásticas de Bhakti-yoga, promovido pelo IBEV, em parceria com a Volta ao Supremo.
IBEV: Gostaríamos que o senhor falasse sobre o ateísmo na atualidade e sua relação com a carência de conhecimento espiritual no ocidente.
Chandramukha Swami: Eu não vejo que este é um problema tão grave quanto a gente pode pensar, porque o que a Bhagavad-gita fala é que existem os modos da natureza material e o ideal é que a pessoa se situe no modo da bondade, e isso vai aproximá-la de Krishna.
Às vezes, você vê uma pessoa assim chamada teísta e, ao mesmo tempo, fanática, demonizando pessoas que não são teístas, que não fazem parte da religião dela... Ou seja, uma pessoa no modo da ignorância ou no modo da paixão, o que também não é muito interessante, porque é até difícil ter um diálogo com essa pessoa. Em contrapartida, você conversa com uma pessoa que se diz ateísta, mas que é inteligente, que é ética, que é honesta, que é uma pessoa madura e que dá para você ter conversas muito interessantes com ela porque está mais no modo da bondade.
Então, grande parte do assim chamado ateísmo está ligado a uma visão muito negativa das religiões, sobretudo as ocidentais, que demonstraram desconhecimento total sobre a natureza absoluta de Deus. Existe este tipo de ideia: “O meu Deus é assim...” Algo completamente sectário, separatista e que uma pessoa inteligente não vai apreciar. Em nome de religião, em nome de Deus, coisas loucas aconteceram nos últimos anos – na verdade, não só nos últimos anos.
Agora, escrevendo sobre Jaipur (Índia), onde estive, eu me debrucei sobre o tema de que, há cerca de quinhentos anos, um imperador mongol destruiu vários templos de Vrindavana. Isso foi feito com uma postura religiosa, em nome de Deus, mas é algo completamente demoníaco. Você vai encontrar no Srimad-Bhagavatam pessoas como Hiranyakashipu que era completamente teísta, mas era demoníaco.
Então, você ter fé em Deus e acreditar na existência dEle não significa tanto, porque o que vai salvar uma pessoa não vai ser sua fé em Deus, mas, sim, o seu comportamento. E você vê que há pessoas que mesmo sem fé em Deus têm um bom comportamento e estão situadas no modo da bondade. Por conta disso, estão pelo menos mais perto de Deus, não é verdade?
Nos Vedas, quando uma pessoa sai de karma-kanda, que é o primeiro estágio no qual ela quer satisfazer os seus desejos materiais através da religião, ela se liga no segundo estágio, que é jnana-kanda. Nesse momento, ela entra nos estudos das Upanishads e no estudo do Vedanta-sutra. O conhecimento das Upanishads desconstrói a ideia de um Deus físico, pessoa, com atividades, para depois, lá na frente, quando falar em bhakti, reconstruir a visão de Deus absoluta.
Então, há muitas pessoas inteligentes que hoje são ateístas porque estão desconstruindo uma ideia completamente equivocada de Deus e, talvez, se aproximando e se preparando para receber o conhecimento do Srimad-Bhagavatam sobre um Deus, sobre o aspecto absoluto e perfeito de Deus.
Então, eu não vejo de um modo geral o ateísmo como um regresso. Eu vejo como algo que faz parte de um arranjo de Krishna para desconstruir uma religiosidade completamente mundana, com a qual especialmente o ocidente tem convivido há muito tempo.
IBEV: O senhor tem alguma publicação ou livro que trata a respeito desse tema, o ateísmo, ou pretende publicar futuramente?
Chandramukha Swami: Não tenho essa pretensão, mas sempre que uma pessoa apresenta a consciência de Krishna, em paralelo a isso, também ela apresenta o que não é a consciência de Krishna.
Na Bhagavad-gita, por exemplo, fala sobre quais são os tipos de pessoas que não se rendem. Há o mayaya-pahrta-jnana, que é quem tem muito conhecimento, mas está encoberto pela ilusão, o conhecimento mundano. Há também o naradhama, há aqueles que são realmente demoníacos... Há quatro no total. Mas o que a gente tem que entender mesmo é que a parte nossa que não quer se render a Krishna está ligada a uma dessas quatro.
E a preocupação nossa é reconhecer dentro da gente o nosso ateísmo. Afinal, temos isso dentro da gente, certo? Não existe um ateísmo só que você verbaliza, mas existe o ateísmo psicológico, o ateísmo de comportamento, de relacionamento etc.
Então, é uma armadilha acharmos que nós somos os teístas e eles são os ateístas. Não. Nós temos muito dentro da gente de ateísmo para ser eliminado também.
Quando a gente está tentando conhecer a consciência de Krishna, paralelamente a gente está tentando entender isso também. Não só em nós, mas a influencia de maya. Maya é isto: a base de todo o ateísmo.
Na nossa própria relação com Krishna, a gente sabe que passa por momentos em que falhamos, não é verdade? Exatamente porque o nosso conceito de Deus ainda é muito relativo. Não é ainda um conceito absoluto. A gente não está com realização plena, sentindo a presença de Krishna em tudo, em todas as coisas, e por isso a nossa visão ainda é muito material, muito limitada, muito sectária.
Então, eu acho que a preocupação nossa de pregar para os ateístas pode ser muito boa, mas acho que é o momento de a gente realmente se preocupar com a influência ateísta que temos.
Então, nesse sentido, acho meu livros acabam falando disso.
IBEV: Vemos que, nas universidades e locais com pessoas de bom nível intelectual, muitas pessoas estão pensando no tema espiritual oriental e nessa filosofia. Então, o que o senhor diria a respeito dessa busca de conhecimento que essas pessoas estão querendo cada vez mais?
Chandramukha Swami: É isso. As pessoas não estão interessadas em religião, mas, paralelamente, estão interessadas em filosofia. E acho que o nosso movimento tem que entender isso muito bem e nós temos um conjunto de pensamentos e de propostas de estilo de vida muito atrativos que não estão ligados necessariamente a uma ideia sectária de religião, e isso a gente tem que apresentar.
Acho que o nosso produto mais atrativo é a nossa filosofia, e não o aspecto religioso sectário. “Ah! Você vai ter que se tornar um Hare Krishna”, ou “Você vai ter que usar um determinado tipo de roupa”, ou “você vai seguir uma filosofia oriental ou não oriental”... Acho que o importante mesmo é transmitir esse tipo de pensamento que a Bhagavad-gita fala, de questões como karma, vegetarianismo, a questão de que nós não somos o corpo etc.
Vemos isto: Por que as pessoas querem yoga e não querem religião? Porque no yoga a pessoa faz o trabalho de purificação interna, a responsabilidade é dela, ela assume esse processo de autoconhecimento e autor realização. Na religião, geralmente, você se entrega a um grupo e acha que eles vão salvar você. Isso não é uma coisa que atrai pessoas inteligentes de um bom nível. Por isso o yoga é muito mais interessante. Acho que os devotos têm que se tornar yogis não no sentido de imitarem os hatta-yogis, mas de ter uma vida mais verticalizada. É o que está faltando.
O problema da religiosidade material é que você se sente salvo, ou seja, é outro aspecto da ilusão. “Ah! Eu me tornei devoto, eu canto Hare Krishna e já estou salvo”, “Eu não preciso mais fazer nenhum processo interno”, “Eu estou meio cansado”, “Já fui iniciado”, etc. Existem essas questões. Muita gente pensa assim “Ah! Há fui iniciado, já comi prasada, já tomei banho no Radha-Kunda, já estou liberado”. Isso é verdade, mas existem outras verdades! Se você ofender, você cai.
Então, essas coisas mais ligadas ao lado ritualístico, ao lado mais dogmático, algo que muitos devotos têm, essas coisas não adianta apresentar para um público inteligente, mais intelectual. Eles não querem. O mesmo em relação à adoração à Deidade. Isso tudo é para depois. No começo, é cantar o santo nome e a filosofia. Isso é muito importante e atrativo às pessoas.
A ideia do yoga, em termos práticos, é uma coisa que tem atraído muitas pessoas. Só que os devotos não estão se preparando para apresentar assim. Fica uma coisa ainda muito dogmática e muito parecida com outras religiões – “nós e eles”. Essa coisa fica meio separada demais e acho que não funciona.]
Entrevista com Chandramukha Swami
Giridhari Das
Se gostou deste material, também gostará destes: A Prova da Existência de Deus | Religião É o Ópio do Povo? | No Dentista.